Num qualquer momento, daqueles que não têm razão aparente para o serem, a nostalgia instala-se de forma pouco serena, em avalanche das recordações que foram polvilhando uma existência de algum sentido, ou não…

Não há mal algum na nostalgia. Significa a saudade que existe e prova de um querer maior que o simples existir de passagem por um viver (ou sobreviver!!!) que o tempo nos conduz. Nem sequer há mal no terramoto que esse cair num vazio provoca. Mas é desconfortável um tal sentido de vazio de algo que já não existe.

Na passada larga de um momento, um cheiro a Armani, suave e pecador, deixando um rasto ligeiro que não desvanece, antes se cola à pele. No virar da esquina, não mais que um pequeno susto com o que se encontra, mais pelo inesperado que pelo encontrado. Na montra do alfarrabista, livros de histórias aos quadradinho e carrinhos de brincar, iguais ao que em tempos idos tinham brindado uma infância de coisas boas.

No reflexo do vidro, a imagem de um homem perdido, de azul acinzentado, como se acabado de acordar. Faltava-lhe o sabor do café, de um amargo doce que, com as sua fragrâncias, libertam os  humores mais espessos de uma noite insuficiente.

Continua-se caminho pela viela tortuosa e escura,  de fim incerto e ar pesado, sempre com o “mundo” nas mãos, desgastando até à limalha mais pequena todas as pequenas arestas que impedem o sono mais descansado. Recusava-se a aceitar os “Porque sim” e os “Porque não”, verbalizados ou apenas disfarçados, que lhe iam dizendo. Dava-lhe um olhar colérico, de quem nada tem a perder e tudo a ganhar. A ausência de uma justificação parecia-lhe uma ponte construída sobre fósforos de cera.

Gostava do desafio (irresponsável por vezes) e, por isso mesmo, adorava que pela sua frente estivesse a calma de compasso e reflexão, que o obrigasse a pensar. Talvez isso o prevenisse de entrar em portas erradas, se bem que, assim como assim, esses impulsos acabassem por lhe dar uma visão periférica dos paralelos que lhe corriam ao lado e, também, um bocadinho mais à frente. Não tomava muita atenção ao passado que não fosse apenas as bases dos seus passos futuros. O presente não existe…

Percorria muitas vezes esses paralelos, sonhava-os como sonhava o seu futuro menos improvável, mas não se via diferente. Talvez pelo problema de viver consigo há demasiado tempo para se enxergar nos verdadeiros defeitos, naqueles pequenos e irritantes defeitos, não se conseguia imaginar outro alguém na maneira de pensar e ser. Gostava da sua verticalidade.

Os passos continuavam nas pedras chapinhantes de águas de rua, escura e lamacenta, embrenhado num cacimbo que se apertava cada vez mais. Adorava aquele frio penetrante, que lhe arrepiava a pele e o fazia acordar. Pouco se importava com a ponta dos sapatos molhada ou com os salpicos de lama que iam pintando as calças. Era ali, exactamente ali, que queria caminhar naquele preciso momento. Só lhe faltava o seu paralelo…

Nos pensamentos que iam correndo, sabia que não lhe faltava apenas isso. Faltava-lhe mais, muito mais… Faltava libertar-se de muitas frases que lhe iam corroendo o espírito. Faltava-lhe verbalizá-las, porque cada frase é um fim em si mesma, como assunto encerrado…

Um dia sonhei escrever-te um conto na pele nua.

Seriam palavras soltas, sem sentido ao mais comum, mas que delineadas na ordem correcta contariam um pedaço da história de mim, de ti, de um nós eterno…

Música: Sleepmakeswaves – I Will Write Peace On Your Wings

And You Will Fly Over The World

O NOIVADO DO SEPULCRO

Vai alta a lua! na mansão da morte
Já meia-noite com vagar soou;
Que paz tranquila; dos vaivéns da sorte
Só tem descanso quem ali baixou.

Que paz tranquila!… mas eis longe, ao longe
Funérea campa com fragor rangeu;
Branco fantasma semelhante a um monge,
D’entre os sepulcros a cabeça ergueu.

Ergueu-se, ergueu-se!… na amplidão celeste
Campeia a lua com sinistra luz;
O vento geme no feral cipreste,
O mocho pia na marmórea cruz.

Ergueu-se, ergueu-se!… com sombrio espanto
Olhou em roda… não achou ninguém…
Por entre as campas, arrastando o manto,
Com lentos passos caminhou além.

Chegando perto duma cruz alçada,
Que entre ciprestes alvejava ao fim,
Parou, sentou-se e com a voz magoada
Os ecos tristes acordou assim:

“Mulher formosa, que adorei na vida,
“E que na tumba não cessei d’amar,
“Por que atraiçoas, desleal, mentida,
“O amor eterno que te ouvi jurar?

“Amor! engano que na campa finda,
“Que a morte despe da ilusão falaz:
“Quem d’entre os vivos se lembrara ainda
“Do pobre morto que na terra jaz?

“Abandonado neste chão repousa
“Há já três dias, e não vens aqui…
“Ai, quão pesada me tem sido a lousa
“Sobre este peito que bateu por ti!

“Ai, quão pesada me tem sido!” e em meio,
A fronte exausta lhe pendeu na mão,
E entre soluços arrancou do seio
Fundo suspiro de cruel paixão.

“Talvez que rindo dos protestos nossos,
“Gozes com outro d’infernal prazer;
“E o olvido cobrirá meus ossos
“Na fria terra sem vingança ter!

– “Oh nunca, nunca!” de saudade infinda
Responde um eco suspirando além…
– “Oh nunca, nunca!” repetiu ainda
Formosa virgem que em seus braços tem.

Cobrem-lhe as formas divinas, airosas,
Longas roupagens de nevada cor;
Singela c’roa de virgínias rosas
Lhe cerca a fronte dum mortal palor.

“Não, não perdeste meu amor jurado:
“Vês este peito? reina a morte aqui…
“É já sem forças, ai de mim, gelado,
“Mas inda pulsa com amor por ti.

“Feliz que pude acompanhar-te ao fundo
“Da sepultura, sucumbindo à dor:
“Deixei a vida… que importava o mundo,
“O mundo em trevas sem a luz do amor?

“Saudosa ao longe vês no céu a lua?
– “Oh vejo sim… recordação fatal!
– “Foi à luz dela que jurei ser tua
“Durante a vida, e na mansão final.

“Oh vem! se nunca te cingi ao peito,
“Hoje o sepulcro nos reúne enfim…
“Quero o repouso de teu frio leito,
“Quero-te unido para sempre a mim!”

E ao som dos pios do cantor funéreo,
E à luz da lua de sinistro alvor,
Junto ao cruzeiro, sepulcral mistério
Foi celebrada, d’infeliz amor.

Quando risonho despontava o dia,
Já desse drama nada havia então,
Mais que uma tumba funeral vazia,
Quebrada a lousa por ignota mão.

Porém mais tarde, quando foi volvido
Das sepulturas o gelado pó,
Dois esqueletos, um ao outro unido,
Foram achados num sepulcro só.

Soares de Passos

De olhos fechados, continuava a sentir os dedos suaves que não passavam de uma história passada. Sentia-os ainda entrelaçados num momento que se afigurava único e, com toda a certeza do mundo, irreptível.

A brisa que soprava, lenta e ligeiramente fresca, trazendo nas suas asas uma mistura suave de aromas de terra húmida de uma chuva miúda, alecrim e alfazema, entrava por entre roupa, enfunando uma camisa mal presa e refrescando a pele sequiosa dos reais que a lembrança trazia à tona. Sabia (recordava-se como forma de ligação terrena) que passado, passado está e que o hoje era o princípio do futuro, mas nem essa certeza lhe tirava a vontade que miraculosamente o tempo voltasse atrás para sentir o reviver do que lá ia…

Lembro-me de, há muitos anos, pequenito de idade, subir uma serra encavalitado numa máquina barulhenta e saltitante nas estradas de terra batida e pedras salientes, ainda pelo lusco fusco da manhã. Um dos momentos preferidos, e que ainda hoje vou perseguindo sempre que posso, era quando passava acima de um tecto de nuvens, após passar por uma parede em que era difícil distinguir mais longe que um palmo à frente do nariz, e as vistas se habituavam a um sol morno e esplendoroso, secando a roupa húmida que pesava no corpo e deixando os olhos ávidos abarcarem uma imensidão de paisagem que se revelava tão maior que aquilo que conseguia absorver com todos os sentidos despertos. Talvez venha também, arrisco, daí, alguma capacidade de tentar ver em tudo na vida mais que um palmo à frente do meu nariz.

Custa-me, de alguma forma, sentir algumas vezes que em tal não sou acompanhado, preferindo-se um imediato sem medida de consequência em futuro mais distante. A maior parte das vezes, não é tão difícil assim adivinhar o que poderá acontecer, e sublinho a expressão de incerteza, porque de futuro ninguém sabe, não se precavendo por resultados mais seguros. É pena, mas é um facto mas, nem por isso, mais fácil de aceitar e assimilar…

Na saudade de um sentir, vão voltando os sons e os gostos que nunca se querem perdidos. O carinho do que se vai sentido gravado em sulco ao longo de nós mesmos e, até, das nossas extensões é história ganha, sem pesados lastros que nos afundem. No entanto, por vezes, sente-se a falta dessa construção lenta e periclitante, que se ergue a custo de sangue, suor e lágrimas.